17 de set de 2016

"Estudo da Clínica" DG-GO/DF


O estudo da clínica na orientação lacaniana
Ordália Alves Junqueira

Podemos chamar de caso quando há evidências de um dizer, da direção da cura, do tratamento de um problema real, libidinal e de gozo – algo que faz casus, algo que cai, que surge fora do lugar. (LAURENT,2002) [1].

Uma introdução: A “lacuna” entre a teoria e a prática.

É notório o poder conceitual da teoria lacaniana, mas segundo Horne (2013) “[...] um problema central em nossa prática é trabalhar sem descanso a lacuna que existe entre a teoria e a prática. ” [2]. Um supervisor, por exemplo, controla seus supervisionandos com o aparato conceitual, “[...] fazendo a teoria da clínica, como Freud iniciou sua prática, e também Lacan, escutando, trabalhando os casos clínicos de Freud para sair da degradação em que se encontrava envolvida a psicanálise, e não injetando teoria na clínica. ” [3]

A indicação de estudar a clínica por meio da apresentação de casos clínicos - ensinada por Freud e Lacan - é no sentido de priorizar um tema importante do caso e trabalhar a teoria, acreditando ser uma boa maneira de "aparelhar teoricamente o caso" sem cair no teoricismo.[4] Por uma questão ética do analista praticante e não somente por questões técnicas, a prática de se trabalhar os casos clínicos - em supervisão (com o supervisor individualmente), ou em discussão de casos clínicos (com mais alguns) - elucidando “o material clínico um por um”- propicia avanços teóricos importantes, ajuda na tarefa contínua do analista, sendo um precioso modo de trabalhar a formação do analista.

“Os casos são sempre um desafio, pois nunca são iguais, e mesmo quando se apresentam sob o manto da identificação, o caminho de uma análise deve ser - questionando a insistência nas identificações superegóicas – encontrar a diferença. ” [5] Para tal, tanto a Construção do Caso quanto a sua Transmissão - como dispositivo de Estudar a Clínica - é uma tarefa nada fácil. A seguir, algumas considerações nodais sobre tal dispositivo.

Um pouco de história, de Freud a Lacan
Em sua aula/texto “Psicanálise aplicada: A prática entre vários, a construção do caso[6], GURGEL (2016) nos conduz à importância de utilizar o Caso Clínico para a Transmissão da Psicanálise. Segue a reprodução, “na íntegra”[7], de um recorte da mesma, onde o autor traz o histórico desse dispositivo e suas ressonâncias na formação analítica.

[...] - OPERAÇÃO TRANSMISSÃO [a partir do caso clínico].

A Os primórdios:
1) Freud usava o estilo novela, que visava – na elaboração do saber construído da psicanálise – o relato da interpretação dos sonhos e dos sintomas (a era de ouro da psicanálise, com os casos clínicos, o de Dora, como paradigma).

2) A partir de 1918, o relato de casos, no modelo tradicional (inspirado em novelas), entra em decadência em decorrência da crise da interpretação ante a inércia do sintoma – os analistas começavam a relatar a história de seus fracassos com a interpretação. A questão não passava mais pelo destino do sujeito e sim pelo destaque de um acontecimento na sessão, que confirmasse a teoria. Esta é a forma que prevaleceu.

Começa então a era dos relatos breves em que se privilegiam questões pontuais (Como demonstrar a experiência analítica; o que se constitui como analítico? E a demonstração do ato analítico).

Podemos identificar dois momentos distintos de passagem na elaboração do caso clínico[8]:

1). Do quadro da doença (preocupação com a classificação, para dar provas da singularidade da doença e não do doente; o olhar e o raciocínio para isolar o sintoma, agrupar e classificar), ao caso clínico propriamente dito;

2). Do doente enquanto objeto do qual a doença se apropriou para a condição de sujeito de sua doença.

A nossa conclusão é que esta passagem aconteceu na Salpetriére: da apresentação do quadro de histeria para produzir um saber sobre esta doença – Charcot demonstrava a não correspondência anatômico-neurológica com os sintomas histéricos – para a construção do caso clínico – esta já era a preocupação de Freud – onde se privilegiava o particular de cada sujeito. 

Lacan (na Direção da Cura), se agarrou a este mote para falar da transmissão da psicanálise: só é possível a transmissão se houver uma articulação do particular.

BLacan, ainda psiquiatra (com sua tese: A psicose paranóica e sua relação com a personalidade), seguiu estes passos, tomando como método o modelo de Jasper. Quando chega à psicanálise, abandona o método exaustivo e propõe: o relato de caso tem como função evidenciar a envoltura formal do sintoma, como a matriz lógica do caso.
Espera-se da apresentação de um caso clínico – como o modo peculiar de transmissão da psicanálise – que haja ressonâncias, que produza variedades significantes, outros sentidos. Neste ponto, a estrutura do caso clínico, é similar à do chiste - que não tem um efeito de sentido único; pelo contrário, há a possibilidade de muitas significações que provoca a audiência, desperta, cria expectativas. [...] (GURGEL, 2016) [9]

A construção do Caso Clínico

Para o Estudo da Clínica, se faz necessário construir o CASO CLÍNICO. [10] Pode-se considerar alguns pontos sobre esse “ato”.

Uma primeira consideração diz respeito à passagem do estudar a clínica na prática médica e estudá-la na prática do psicanalista. Promover a passagem do paciente da condição de “estudo de caso” (caso da doença) para a condição de “caso clínico” (elucidando “o material clínico um por um”), estamos na clínica do discurso analítico.  Segundo BROUSSE (2002) “É dever político do analista: “[...] devolver ao sujeito a possibilidade de escolha diante dos significantes mestres que o condicionam”[11]. No Estudo da Clínica, o paciente estará na condição de “caso clínico”.

Uma segunda consideração concerne à Construção do Caso Clínico, que é feita pelo analista que conduz o caso. Para tal, utilizaremos uma bela citação de Miller (2012) [12]

[...] Cada um tem sua veia de louco e o testemunhamos ao localizar essa veia de loucura em nossa prática, não em nosso paciente, mas, em nós mesmos, analistas, terapeutas. É como uma lição que nos demos a nós mesmos. Uma lição que é bom não esquecer daqui para a frente: em psicanálise, o caso clínico não existe, não mais que a saúde mental. Expor um caso clínico como se fosse de um paciente é uma ficção; é o resultado de uma objetividade que é fingida porque estamos implicados, ainda que seja pelos efeitos da transferência. Estamos dentro do quadro clínico e não saberíamos abater nossa presença nem prescindir de seus efeitos. Tratamos, sem dúvida, de comprimir essa presença, de esmerilhar suas particularidades, de alcançar o universal do que chamamos o desejo do analista. [...] Mas, a partir do momento que conseguimos apagar o que nos singulariza como sujeito, então é o analisante quem sonha; quem sonha conosco, seu interlocutor, com os rodeios de seu fantasma e com a identidade que atribui a esse interlocutor, que não saberiam não figurar no quadro.  (MILLER, 2012).[13]

Segundo Laurent (2008), uma boa maneira de retomarmos a questão do desejo do analista. Para o psicanalista a Psicanálise Pura repousa sobre o analisante, lembrando que os psicanalistas tendem a se proteger da psicanálise, ou seja, eles têm tendência a não mais falar como analisantes, sendo essa a forma de se protegerem da própria psicanálise. Por isso Lacan (1973) pode falar de sociedades de psicanálise como um grupo de proteção contra o discurso psicanalítico. Pode-se dizer que o psicanalista existe porque existe o analisante (não o inverso). HORNE [14],  insiste em dizer que o que falta é analista e não analisante, um caso a pensarmos em nossa formação.

Assim, na transmissão de um caso clínico acontece algo, no mínimo curioso: o caso é de um analisante, mas quem se apresenta no relato é o analista - além de ser ele o analista em ato, também é ele que constrói o caso, também, a nosso ver, um ato.

Para concluir: À exemplo um caso...

Seguindo as duas considerações – que o paciente estará na condição de “caso clínico”; e o analista também se apresentará no relato, uma vez que estará nele implicado, em sua dimensão transferencial - a apresentação de Caso Clínico tenta elucidar o material clínico e o lugar do analista praticante. Isso se faz não sem consequências éticas, presentes no percurso de um analista - que vai da análise pessoal, da posição de analisante, até a posição de analista na experiência de analítica.  Para Lacan (1998)[15], o analista é livre com relação à tática, menos livre com relação à estratégia e “nada livre” em sua política, sua ética, e a técnica está sempre atrelada à ética, não o oposto.   No Estudo da Clínica, utilizando o relato de caso clínico - priorizando um tema importante (do caso) para trabalhar a teoria - a Transmissão obedecerá a ética da psicanálise.

Convidamos os interessados na Transmissão da Clínica de Orientação Lacaniana, que toma corpo na atividade “Estudo da clínica da DG-GO/DF”, a darem sua contribuição para o trabalho, enviando o relato de um caso clínico que conduz, tanto em sua clínica particular quanto em alguma instituição (de trabalho ou escola).  As orientações para o envio do Caso Clínico estão anexas. O próximo encontro será no dia cinco (05) de outubro/2016.

Lembrando que o analista “se faz” previamente se analisando e também em sua prática.

[...] em uma análise, situar o analista significa, na verdade, produzi-lo. É uma tarefa que cabe basicamente ao analisante, como Freud aprendeu com suas pacientes histéricas. [...] O analista vai ser aquele que - não mais um qualquer, mas alguém - reconhece no amor o sinal de uma mudança de discurso e tenta mantê-lo articulado com o saber, a ponto de encarnar a sua suposição. (BARROS (2013)[16] 

Assim, a Construção e apresentação de Caso Clínico, utilizado para Estudar a Clínica é um dispositivo para a Transmissão da Psicanálise e uma forma de se “fazer um analista”.

Obrigada!
Goiânia, 17 de setembro de 2016.




[1] LAURENT, L. –   La poética del “caso lacaniano”, in Incidencias memorables en la cura analítica –
Jornadas anuales de la EOL, Paidos, Buenos. Aires. 2002.
[2] HORNE, Bernardino [2013]. A Supervisão, Revista Correio. São Paulo: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 73, novembro de 2013, pág. 14.
[3] Op. Cit. Pág. 15.
[4] GURGEL, Iordan [2016] Psicanalista/psiquiatra, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise, sessão BA.
[5] VERAS, Marcelo [2013]. Editorial. Revista Correio. São Paulo: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 73, “A Supervisão”, novembro de 2013, pág. 5.
[6] UCSAL aula 3-2016- Originalmente apresentado nas Jornadas do CLIN a, SP, 27/11/04
[7] Autorizada pelo autor.
[8] MALENGREAU, P. [2003] Nota sobre a construção do caso. Almanaque de Psicanálise e saúde Mental, IPSMMG, ano 6, n. 9, 2003.
[9] GURGEL, Iordan [2016]. Aula/Texto (Inédita), Salvador-BA.
[10] CASO, do latim Cadere: cair para baixo (sair da regulação simbólica, encontro direto com o real); e
CLÍNICA, do grego Kline: leito (ensinamento que se faz no leito, a partir do particular do sujeito e não do universal do saber). In aula/texto Gurgel (2016), op. Cit.
[11] BROUSSE M.H. Seminário Internacional: O inconsciente é a política, na EBP – SP., novembro/2002.
[12]  MILLER, Jacques-Alain. [2012]. Encerramento do V ENAPOL Conclusão do PIPOL V. Buenos Aires, Argentina, novembro-2012. Disponível em: http://www.enapol.com/pt/template.php?file=Argumento/ conclusion-de-PIPOL-V_Jacques-Alain-Miller.html.
[13] MILLER, Jacques-Alain. [2012]. Op. Cit.
[14] HORNE, Bernardino, psicanalista, Membro da Escola Brasileira de Psicanálise, sessão Bahia.
[15] LACAN, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. Escritos. R J: Zahar, 1998, p. 610.
[16] BARROS, Romildo do Rêgo. [2013]. Sobre a supervisão.  Revista Correio. São Paulo: Revista da Escola Brasileira de Psicanálise, n. 73, “A Supervisão”, novembro de 2013, pág. 75.

"ESTUDO DA CLÍNICA" DG-GO/DF


8 de ago de 2016

Curso - Conceitos fundamentais da Psicanálise

Nesta sexta-feira e sábado, dias 12 e 13 de agosto, receberemos Vera Lopes Besset (AMP/EBP) como professora convidada do V Módulo do Curso de Extensão da Delegação Geral GO/DF-EBP intitulado “Conceitos fundamentais da Psicanálise”. Neste módulo será trabalhado o tema da Alienação e Separação. Lembramos que o curso terá início na sexta-feira às 19 horas e no sábado às 8 horas.

Seção Clínica - 10/08